Nunca soube como te dizer.
- O meu corpo apenas pede uma sequência, tal como uma necessidade a impor-se de um qualquer modo.
-Estás a falar de droga?
- Espera, não sabes sobre o que estou a falar?
- Não, julgo que estás a divagar...é isso, estás a divagar.
- Não te compreendo.
- E isso é um problema meu ou um problema teu?
- Neste momento creio que é um problema nosso, um problema de comunicação. Estavas a ouvir-me ao menos?
- Tu estavas a falar e eu estava a ouvir-te atentamente.
- Então estás a dizer que eu não sei falar?
- Não, não disse isso.
- Então perdeu-se o que não te interessava entre o que eu disse e o que tu ouviste.
Falta de comunicação. Seria uma boa desculpa para justificar a falta de tudo o resto.
Pedi-te mais inconsciência.
Aparentas demasiada firmeza. Com princípios inabaláveis. Com ideias que não sucumbem o tempo.
E penso que apesar de caminhares de costas direitas e de cabeça afirmativa, à noite deves ter dores de costas como os outros.
Enquanto te pedia que me deixasses acender um cigarro percebi que eras tu quem ardias e eu quem precisava de ser salva.
Entraste em mim num assalto e foi bom resistir. Perdi-me em ti, por descuido.
Agora não me encontro sem ti.
De tudo nada ficou como prova nem uma linha com a tua caligrafia.
Fecho os olhos e faço por fixa uma só imagem na memória, um só movimento curto dos teus braços, um sorriso na tua cara, uma palavra, boa ou má, e não consigo. A imagem escorrega e desfaz-se no centro ou nos cantos.
A imagem já não é a mesma. E eu não quero abrir os olhos para não ter que não te encontrar.
Pensei em ligar-te a meio da noite, para te obrigar a pensar em mim.
Foi nessas meias noites que algumas vezes fizeste das minhas recusas um avanço.
Apesar de tudo, inequívoco é que o instante passa, e da espuma como da pedra, também se esvairá a substância.
A fragilidade da espera é ainda a eternidade possível. Mas não por muito tempo.
Quase que te odeio pela mentira que se procura fazer anestesia. Quase que te odeio pelo amor ao desapego.
Não faz sentido um amor que acaba e não morre.
Gosto da expressão 'corpo a corpo'. Não só pelo que há de íntimo na luta, como também pelo que existe de violento no gostar de alguém.
Talvez porque o jogo tangencialmente perigoso tenha o sabor suado da dança.
O nosso 'corpo a corpo' tem o tom das noites quentes de verão entre quatro paredes e a acidez metálica do sangue ao canto da boca.
É uma dualidade em que se entrega e se morre.
Nesta luta joga-se à cabra-cega com o inexorável vazio de sermos um.
E por algum motivo quando o golpe é despropositadamente violento, quando dói, fazemos das tripas coração.
E o amor passa a ser mais gástrico que vascular.
Uma dilaceração interna das entranhas, uma dor visceral que cola o estômago às costas como se o roesse.
E por momentos constato que além de sangue, suor e lágrimas também sou ácido.
As feridas acabam por sarar mas antes são crostas tapadas de um líquido amarelo.
Dei-te uma pá e pedi que começasses a cavar. Um buraco à minha medida, nem mais, nem menos.
Tu eras o alguém com quem eu podia estar sozinha.
E para ti sou alguém que contigo te fazia querer ser sozinho.
Depois de tudo não sei se quando te encontrar de novo te quero perguntar quem és.
Desculpa a inconsciência. A minha. Pedi a tua e utilizei a minha como arma de arremesso.
Tentei uma história diferente, de um futuro que hoje sinto sofregamente, abruptadamente.
Tive medo de morrer num sítio estranho, e tentei guardar para ti o último fôlego, para um depois.
Sempre beijei de olhos fechados. Percebi que agora só o consigo fazer contigo.
A causa precedeu o efeito a culpa é tua, a condenação é minha.
As frustrações não são para sempre, e os fogos só se apagam nas mãos.
Mais do que a ausência de um fim, faz-me confusão a ausência de um principio.
Prostro-me contra a parede com umas quantas pequenas verdades nas mãos cerradas.
Falei. Falei de mais. Sobre nós. Sobre o hipotético nós. Sobre o impossível nós.
As minhas palavras nunca sustiveram o mundo, e o mundo nunca as susteve a elas.
Saí para me esquecer que existimos.
Falámos depois para eu conseguir existir sem ter de te esquecer.
Existiam dois corpos e duas camas. E depois um corpo e uma cama.
De manhã, ao compor os lençóis da cama, penso se alguma vez voltarei a desatar aqueles nós, que nunca são os nós da última madrugada.
De dia em dia até à desilusão final, há semanas assim. Busca-se energia, faz-se o necessário, mas na hora que se segue ao fim despacha-se o antecipado gozo do prémio de consolação e só então se fica livre outra vez.
A batota permitida acontece de noite. Um pouco de pesadelo acordado, embebido de whisky.
Era o teu rosto que dormia nos meus lençóis de cor. E eu vigiava-te a respiração e beijava-te a face. Depois ia até à sala, encostava a testa à janela e ficava ali, como se tivesse montado guardo e o turno fosse eterno.
Voltava ao quarto, respirava por ele e sonhava pelos dois.
Recuso a tua capacidade castradora. Recuso ser um dado adquirido. Recuso deixar de o ser.
- Acho que tenho medo.
- Medo do quê, Marta?
- Medo da obsessão.
- (silêncio)
- Eu sempre tive medo de todo o tipo de psicoses. Acho que esse medo, só por si, já é uma psicose. Ou seja, eu tenho medo do medo. Dá para perceber?
Apetecia-me hoje olhar-te e dizer que é à margem da pele que se correm os riscos mais assumidos.
Apetecia-me prender-te com as mãos numa linguagem que nem eu entenderia.
Prender-te a respiração.
E obrigar-te a ler isto com a sede com que tu já bebeste de mim.
E erguer-me apoiada nos teus ombros para que o peso te faça perder as forças.
Apetecia-me. Mas não tarda voltas a aparecer e eu, eu volto a morrer.
Pensei que regressar era voltar a mim.
Mas não o medo continua a viver na minha garrafa da razão.
Não sei como te dizer isto, mas os pássaros voam todos por baterem as asas e não por saberem voar.
Não sei como te dizer que há flores que não nascem na Primavera.
Não sei porque fugiste pelo tempo, entregue ao inevitável e não a mim.
Não sei como te dizer que o meu mal foi ter o coração ao pé da boca e a minha mania de cortar o pão com a faca sempre demasiado perto dos dedos.














Comments