- Não gosto de dormir contigo.
- Não? Porquê?
- Porque nunca descanso bem.
- Eu também não durmo bem, mas fico a ver-te dormir. E na manhã seguinte faço olhos de sono, despenteio o cabelo, e faço-te querer que, a teu lado, adormeço profundamente.
- Ah, pensei
- Sabes, estou cansada dos momentos serem pensamentos.
- E eu estou farto dos teus pensamentos levarem a estes momentos.
- Cresce em mim uma vontade de gritar. De quebrar os vidros. De quebrar as tuas certezas, despir-te o egoísmo, assimilar as tuas experiências.
- Falaste em despir não falaste?
- Sim, gostava de ver o teu corpo nu, mas no acto do nascimento, para ter a certeza que eras igual aos outros, nem mais, nem menos.
- Entendes finalmente que em mim ninguém pode viver?
- (Calo, calo, calo, calo tudo em mim. Prendo, repreendo, amarro, não liberto, não, não, não, não liberto]
- Sim, sou seco, imperfeito e cruel.
- (De novo o grito do silêncio
Até quando?)
- Fala! Deita tudo cá pra fora!
- Eu procuro a tua mão, a tua sombra nas ruas, nas esquinas, olho para os espelhos,
Dentro dos caixotes, nos bolsos das crianças, nos rebuçados ainda por desembrulhar, procuro-te na tinta das paredes, nos filmes, nas músicas, no vento. Procuro-te.
Nos olhos do meu irmão, no regaço da minha avó, na água do banho, dentro do tacho, no dente podre da senhora da lavandaria, na minha pele ao acordar, na promessa de um dia melhor.
Vou de manhã procurar-te, e nunca te encontro. E torno a busca, no prato, no quotidiano, na psicologia, numa unha que teimo em roer.
- Olha agora para mim! Como não me encontras se é comigo que dizes coisas sem nexo?
- Olho-te. Falo-te. E amanhã vou-te procurar nos mesmos sítios e sei que não te vou encontrar.
- O teu problema foi teres procurado a sombra nos teus próprios dejectos para curares as tuas feridas fétidas.
- Não, o meu problema foi pensar. Dar forma aos pensamentos é agudizá-los, é dar-lhes validade.
- É a tua mania de pensar, de repensar, de projectar um guião, que faz com que nunca venhamos a ser.
- Não, não viremos nunca a ser porque tu não estás, tu nunca estás.
- Então é melhor não olhar, não ver, não cortar, não magoar, não ser.
- Então, hoje não-sou.
- A mim parece-me que ninguém é ninguém sem fingir que ama.
- Explica-me. Explica-me porque dormes aqui, e porque quando te ergues mostras-te morbidamente aborrecido com a simplicidade das paredes que envolvem o meu quarto.
- (Curvas os lábios num sorriso dorido).
- Fala! Queres que diga o que estás a pensar? Eu digo, eu sei Deixa-me partir, porque o sol já vai alto e o mundo espera-me lá fora. Deixa-me apaixonar-me por gajas que nunca vi, deixa-me ser tão teu noutro lugar que não dentro de ti. Se continuares aqui, tão pequenina e frágil, tão imensa, não conseguirei conter-me. Acertei?
- Não. Enganas-te.
- Só tenho medo que as esperanças e os motivos se percam na infinitude do tempo e que só reste o orgasmo e a antecipação do fim.
- Eu só não uso palavras. Não as uso. Não me uso. Não te uso. O tempo é sempre impaciente dentro de mim. Gosto da liberdade, destes jogos, deste poder que me entregaste e nunca soube bem o que fazer com ele.
- Eu quero a liberdade e o fim deste jogo de Poker com regras mal definidas.
- Jogo de poker?
- Sim. Em todas as mãos que jogámos, ganhasse quem ganhasse, sempre mostrei as minhas cartas. Nunca fui boa a fazer bluff. As tuas vi-as uma ou duas vezes, quando me inclinei para o teu lado e consegui ver-te o jogo.
- O que é que isso tem a ver?
- All-in. Sabes o que é? Na próxima jogada faço all-in. Acompanhas-me?
- Aí perdes tudo ou ganhas tudo. Não é isso que quero. Porque não arranjamos um meio termo?
- Sabes o preço do peso da dúvida?
- Muito alto.
- E o preço de um corpo e de uma alma?
- Podem até ser oferecidos, não?
- Pois bem, ofereço-te um corpo e uma alma cheia de nada.















Comments
Sabes que te Amo?
Sabes porque não jogo Pocker?
Porque não me arrisco nem penso em fazer All-in de ti!
************* Amu.te minha Amora
Quero Te Feliz.
--
Valeu Apena!
Chorei!
E FOi Feliz
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